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Quando procuramos um psicólogo ou psicoterapeuta, procuramos alguém que desfaça primeiro que tudo o nosso receio de ir passar por uma perda de tempo – quiçá já não pela primeira nem pela segunda vez. Procuramos um espaço de desabafo. Procuramos muitas respostas. Ainda assim, uma vez iniciado o processo terapêutico, rapidamente iremos entender que os caminhos são diferentes do que esperávamos, mas que se estivermos dispostos, nos poderão levar muito mais longe do que a princípio julgámos ser possível.

Em psicoterapia, respeitar o tempo e o ritmo de cada indivíduo é um aspecto fulcral. Nada mudará de um momento para o outro, e depois de tolerada uma certa frustração inicial, é importante que se perceba isso mesmo. Depois, o espaço inicialmente de desabafo terá de se transformar num lugar no qual nos possamos entender: o que nos move e demove e porquê? Num espaço no qual principiemos um processo de crescimento e (re)conhecimento pessoal, que continuará por toda a nossa vida, muito após o processo terapêutico em si ter terminado.

Quanto às respostas, não há respostas fáceis. Há um percurso a dois no qual um, pelo seu distanciamento e pelo seu conhecimento do funcionamento psíquico humano, lançará luz sobre troços que permaneceram mal iluminados, por incidente ou em nome de um conforto relativo; e que na sua obscuridade se tornaram impeditivos do entendimento e bem-estar pessoal.

Catarina Santos

Psicóloga Clínica e Psicoterapeuta Psicanalítica

Directora Técnica e Coordenadora da Equipa Psicopedagógica de A Casa Amarela.

Foto: Jacky Kennedy por Andy Warhol.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

“Depus a Máscara”

Depus a máscara e vi-me ao espelho.
Era a criança de há quantos anos.
Não tinha mudado nada…
É essa a vantagem de saber tirar a máscara.
É-se sempre a criança,
O passado que foi
A criança.
Depus a máscara, e tornei a pô-la.
Assim é melhor,
Assim sem a máscara.
E volto à personalidade como a um términus de linha.

Fernando Pessoa (Álvaro de Campos)

 

Sigmund Freud dizia:
“Seja qual for o caminho que eu escolher, um poeta já passou por ele antes de mim.”

“Depus a Máscara”, fala sábia e muito sensivelmente de personagens que se vão construindo, de máscaras. Do que se foi, do que se é… De como por vezes erguemos defesas, muros de protecção e de segurança, os quais depois nos deixam mais sós, na inacessibilidade daquilo que se esconde… Do que se esconde e também do que está escondido. Por visitar, revisitar.

Talvez, no fundo, este poema fale de verdade. E de liberdade. Temas que se relacionam intimamente com a essência de um processo terapêutico.

Em psicoterapia privilegia-se a procura da verdade interna. O encontro de um significado e sentido para as vivências interiores e exteriores. Partilha-se um espaço onde as emoções podem ser pensadas, e onde o indivíduo pode descobrir como lidar com os seus sentimentos. Nesta medida, pode tornar-se um espaço de descoberta de novos caminhos e possibilidades de vida. Um processo de construção e transformação da pessoa, no qual será ajudada a pensar autonomamente e a alargar o conhecimento de si própria.

Será um trajecto precioso de recordar, desvendar, revelar… De sentir o agora. De pensar livremente… De transformar, viver, ser.

Como um movimento de rotação, de onde outras viagens se irão desenhar.

Voltando às palavras de Fernando Pessoa: “Quero ir buscar quem fui onde ficou…”

 

Catarina Barros

Psicóloga Clínica e Psicoterapeuta Psicanalítica

Psicóloga na Santa Casa da Misericórdia de Lisboa

Devido a um processo que dá pelo nome de “amnésia infantil” e que ocorre até por volta dos três anos, grande parte das pessoas têm poucas ou nenhumas memórias até esta idade. Isto acontece porque até ao final do terceiro ano as crianças não desenvolvem memórias a longo prazo.

A maior parte das vezes, as “memórias” que chegam até à idade adulta são inconscientes e ligam-se às sensações de prazer e desprazer vividas. Quando um bebé ao colo, vê a mãe e o pai rirem-se para ele e sente esse afecto, ele sente-se absolutamente feliz. Absolutamente feliz mas sem fazer a mínima ideia, que nada mais na sua vida terá um impacto tão grande como esse momento; nenhum outro momento o acompanhará de um modo tão presente por toda a sua vida.

O modo como nos sentimos amados desde esse início, definirá quem somos, o quanto gostamos de nós e o quanto somos capazes de gostar dos outros. Por este motivo, tudo aquilo que uma criança precisa, é em primeiro lugar de sentir amada e em segundo lugar de sentir que alguém impõe limites à sua vontade e o faz sentir-se seguro – quem permite a uma criança fazer tudo, desiste; e desistir de uma criança não é amá-la.

Para além disto, “as crianças só precisam mesmo que lhes asseguremos que as coisas boas predominam sobre as más, e que serão felizes para sempre…” (Nuno Colaço).

Catarina Santos

Psicóloga Clínica e Psicoterapeuta Psicanalítica

Directora Técnica e Coordenadora da Equipa Psicopedagógica de A Casa Amarela.

Colaço, N. (2008). Novos miúdos, novos tempos ou velhos? in Congresso “Gente Pequena, Grande Aposta”. Lisboa.

A solidão é um dos fenómenos mais públicos e mais invasivos da nossa sociedade. É também uma das realidades mais escondidas e mais mal encaradas de sempre.

É moda não se dizer que se está só – ou melhor, fica mal dizer-se que nos sentimos sós. Quem se sente sozinho, tem de escolher um caminho outro que não falá-lo.

Falar de solidão é pouco sedutor. E quem não deseja seduzir?… Seducere. Do grego Se-Du–Cere… “Passar ao lado”. Passar ao lado?! Do que é que passamos ao lado para sermos sedutores ao olhos dos outros?

Se pensarmos, que se há um lado de nós bonito e aprazível, haverá sempre para o contrapor, um lado mais feio e não prazeroso… então devemos passar ao lado de pelo menos metade de nós.

E se passamos ao lado de “nós”, quase certamente, passamos também ao lado de algo igualmente importante: aquilo que verdadeiramente desejamos. A sedução é um desvio no caminho que fica entre o “nós” e o “nosso”.

Mas se calhar valerá a pena. Pormos o nosso rosto sedutor e sairmos para a rua preparados para sorrir para quem valha o esforço. Munidos de gargalhadas e exclamações vibrantes para distribuir pelos nossos amigos.

Se calhar vale a pena. O nosso lado não prazeroso e feio vai ficar lá em casa, de qualquer forma, à nossa espera. Tentaremos ficar a sós com ele o menor tempo possível. Some dance to remember, some dance to forget…* Escolhamos o nosso mote…

Há que falar a solidão? Quando nos sentimos sós. Calá-la é a melhor forma de a perpetuar. Esperar que os outros adivinhem, é arranjar uma má desculpa para poder dizer que ninguém quer saber.

Catarina Santos

Psicóloga Clínica e Psicoterapeuta Psicanalítica

Directora Técnica e Coordenadora da Equipa Psicopedagógica de A Casa Amarela.

A linguagem representa um papel fundamental na interacção do ser humano com o meio e subsequente formação de vínculos. Permite ao indivíduo estruturar o seu pensamento, traduzir o que sente, expressar o que já conhece e comunicar com os demais.

As dificuldades manifestadas por alguns indivíduos ao nível da aquisição e/ou domínio da linguagem remetem para repercussões profundas a outros níveis, nomeadamente ao nível da comunicação e consequente sociabilidade.

Pessoas com transtornos específicos de linguagem tendem a encontrar dificuldades ou limitações na sua vida social. Esta situação pode suscitar problemas emocionais secundários, gerados pelas próprias dificuldades de comunicação, pois são, tendencialmente, mais isoladas, menos interactivas, mais ansiosas e, acima de tudo, menos confiantes na comunicação.

Neste trabalho, e atendendo ao contexto profissional das intervenientes, apresentam-se exemplos de alterações da linguagem – afasia e gaguez. No que respeita à gaguez, pretende-se abordar este tipo de alteração da linguagem falada, à luz dos aspectos psicológicos que podem estar envolvidos. Este problema será ilustrado com um caso clínico em que a gaguez surge como expressão de um conflito na relação com as figuras parentais, nomeadamente uma vivência de abandono materno.

Catarina Barros

Santa Casa da Misericórdia de Lisboa

Isa Severino

Instituto Politécnico da Guarda

Aqui há uns dias pediram-me para fazer de Capuchinho Vermelho. Eu empurrei um lenço vermelho por cima da cabeça e tentei pôr o meu ar mais angelical. A filhota deu dois passos para trás, olhou-me como um encenador experiente e depois de ponderar dois ou três segundos, deu-me a sua aprovação: “Estás bem.”.

Perguntei-lhe quem iria ela ser. Ela respondeu que seria o lenhador. Foi até à porta do quarto e deu meia volta. Quando voltou já encarnara o seu papel. “Eu sou o Lenhador, menina Capuchinho Vermelho… Não tenha medo… Eu vou protegê-la!”. “Proteger-me do quê?” perguntei-lhe com um ar supostamente espantado. “Do Lobo Mau que está além escondido atrás das árvores…”. Respondeu-me fingindo um ar amedrontado e apontando para o armário.

Olhei em direcção às “árvores” e exclamei: “Ah! Eu não tenho medo… Onde é que ele está? Onde é que ele está que eu já lhe digo…”. A filhota fez um ar algo atónito e murmurou “Não… Não… Que o Lobo é muito mau, menina…”. Eu lancei-lhe um ar incrédulo e levantei-me. Fui até ao armário e fingi dar um murro no topo da cabeça do lobo que se escondia atrás dele. “Pronto. Já está. Não há mais Lobo Mau!…”.

A filhota olhou-me com um ar ainda mais incrédulo. Por momentos pareceu-me uma actriz deixada sem deixas. Mas enganei-me. Ela lançou-me um meio sorriso e do topo dos seus quatro anos recordou-me: “Oh mãe… Há muitos lobos por aí…”.

Pois há filhota. E logo a seguir, quando foste outra vez até à porta do quarto, deste meia volta e voltaste, mostraste-me que também já sabias outra coisa. “Menina Capuchinho Vermelho… Não tenha medo! Eu sou o Lobo Bom mas não lhe faço mal!… Também há lobos bons, sabe?…”.

Catarina Santos

Psicóloga Clínica e Psicoterapeuta Psicanalítica

Directora Técnica e Coordenadora da Equipa Psicopedagógica de A Casa Amarela.

Foto: Jasmine Becket-Griffith

Numa sociedade moderna, detentora de variadíssimos meios de comunicação, qual o lugar da literatura de expressão oral na infância? Qual a importância destes contos no desenvolvimento da criança?

A procura de algum significado para a vida, trata-se de um processo pessoal e subjectivo que se inicia bastante cedo. Independentemente das inúmeras opções que cada indivíduo possa tomar, existem temas que a todos pertencem.

Os contos tradicionais são exemplo de uma herança cultural colectiva, focalizada nas vivências humanas. Mediante uma linguagem própria, recorrendo ao «maravilhoso», grandes emoções são experimentadas nestas histórias, onde estão simbolizados conflitos humanos universais. Nomeadamente conflitos comuns no pensamento da criança, como as rivalidades, a rejeição, a luta pela independência.

É comum num conto de fadas ser exposto um dilema de forma concisa e directa, o que permite à criança enfrentar o problema na sua forma mais essencial. Um enredo mais complexo poderia ser-lhe confuso. O conto atribui aos medos da criança, muitas vezes confusos e mal delimitados, uma representação precisa. Dá-lhes um nome e sugere uma maneira de lidar com eles.

O bem e o mal estão presentes, mas ao serem representados simbolicamente (em personagens do maravilhoso) e afastados temporalmente (“Era uma vez…”; “Há muito, muito tempo…”), permitem que a criança encontre significados que lhe serão úteis, sem se traçar uma linha directa com as suas vivências reais.

A literatura de expressão oral incita à criação de um palco imaginário, onde é possível integrar significados, encorajando ainda o acto criativo.

Uma das personalidades que mais amplamente se debruçou sobre esta área foi o psicanalista vienense Bruno Bettelheim, autor do livro “Psicanálise dos Contos de Fadas”.

Segundo Bettelheim, a cada conto corresponde um sector da evolução interior do indivíduo, utilizando alguns exemplos populares: em João e Maria, a luta relutante pela independência dos pais (o medo da separação); em Capuchinho Vermelho, a exposição prematura a experiências para as quais ainda não se está preparado (primeiros desvios às orientações dos pais); em Branca de Neve, o conflito/rivalidade entre filho e figura parental (simbolizado no conto pela madrasta), em A Bela e o Monstro, a temática antiga do amor existente entre progenitor e filho, do qual nascerá mais tarde um amor diferente, que o fará unir-se à pessoa amada.

O bom herói é largamente escolhido como figura de identificação, por se afigurar extremamente agradável à criança, em todas as suas lutas. O modo como o protagonista, frequentemente o mais pequeno, ou o mais novo, se desenvencilha dos obstáculos deparados, confere um sentimento de esperança na criança de que também ela, vencerá as suas piores ameaças. De acordo com o referido autor, quanto mais simples e directa é uma personagem, mais rapidamente a criança se identifica a ela e rejeita a má.

O “final feliz” que alguns adultos consideram irreal e falso, parece ser uma óptima contribuição que estes contos fornecem às crianças, encorajando-as a lutar por valores amadurecidos e a construir um sentimento positivo em relação à vida.

Cada vez há evidências maiores no sentido dos sistemas de crenças terem um efeito profundo sobre o funcionamento psicológico, de infundirem esperança e significado, os quais poderão ir assistindo na superação das dificuldades com que nos possamos deparar.

“E viveram felizes para sempre…”

 

Catarina Barros

Psicóloga Clínica e Psicoterapeuta Psicanalítica

Psicóloga na Santa Casa da Misericórdia de Lisboa

Ilustração: http://flor-de-sol.blogspot.com

Resumo

O presente trabalho, com base numa revisão da bibliografia existente e num estudo explorativo de quatro pacientes anorécticas, pondera a existência da função ómega (δ) proposta por Williams na etiologia da Anorexia Nervosa, assim como a sua contribuição para a prevalência de dois sistemas de defesas distintos (“Sem Entrada” e “Poroso”) ao nível dos seus subtipos restritivo e purgativo. Considerando que o processo em causa se trata da falha de uma função relacional ou não de uma função paralela ou equivalente, é proposta a denominação disfunção ómega (δ).

Palavras chave: Anorexia Nervosa, Disfunção Ómega

Abstract

The present study, gathering basis on the revision of the existing bibliography and in an explorative study of four anorectic patients, aimed to analyse the existence of the omega function (δ) proposed by Williams in the aetiology of this illness, namely, its contribute to the prevalence of two distinct defensive systems (“No entry” and “Porous”) within Anorexia Nervosa subtypes: Restrictive and Purgative. Gathering in mind that the referred process is a failure in a relation function rather than an equivalent or parallel function, we propose the denomination omega dysfunction (δ).

Key words: Anorexia Nervosa, Omega Dysfunction.

Catarina Santos

Psicóloga Clínica e Psicoterapeuta Psicanalítica

Directora Técnica e Coordenadora da Equipa Psicopedagógica de A Casa Amarela.

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